Cesária Évora faleceu hoje em São Vicente

Cesária Évora faleceu hoje em São Vicente

Cesária Évora faleceu hoje em São Vicente

A cantora cabo-verdiana Cesária Évora faleceu hoje aos 70 anos em Mindelo. Seguno a Lusafrica, Cize estava internada desde sexta-feira.

A Diva dos pés descalços faleceu hoje, dia 17, em São Vicente, devido a complicações respiratórias. Segundo informações da rádio nacional, RCV, a cantora sentiu-se mal por volta das 07h00 da manhã quando foi levada de urgência para o hopistal Batista de Sousa.

Por voltas das 10h00 o prognóstico era muito reservado de acordo com as fontes médicas, sendo que a notícia da morte de Cize foi confirmada às 11h20. O corpo da Cize vai estar em câmara ardente no Paços de Conselho de São Vicente.

Cesária Évora iniciou a sua carreira internacional no início dos anos 90, levando o nome de Cabo Verde a terras remotas através do encanto subtil sua voz, que durante as últimas duas décadas emocionou plateias ao redor do mundo. Cabo Verde perde uma das suas maiores vozes e uma referência na música nacional.

Cesária Évora nasceu a 27 de Agosto de 1941 na cidade de Mindelo, em Cabo Verde. Filha de Justino da Cruz Évora tocador de cavaquinho e violão e de Dª Joana, o grande e eterno amor da sua vida. A cantora era considerada a « embaixadora da morna », tendo editado 24 discos, entre originais, ao vivo e em parceria com outros artistas de vários países.

Cesária Évora uma vida a cantar Cabo Verde

‘Quem mostra’ bo, ess caminho longe, quem mostra’ bo, ess caminho longe, ess caminho, pa São Tomé (…) sodade sodade, sodade dess nha terra São Nicolau (…)’ composição imortalizada na voz da Cesária Évora resume em poucas palavras a carreira musical de uma das maiores vozes de Cabo Verde.

Cesária Évora nasceu a 27 de Agosto de 1941 na cidade de Mindelo, em Cabo Verde. Filha de Justino da Cruz Évora tocador de cavaquinho e violão e de Dª Joana, o grande e eterno amor da sua vida. A cantora é considerada a « embaixadora da morna », tendo editado 24 discos, entre originais, ao vivo e em parceria com outros artistas de vários países.

Cize, para os amigos anunciou o término da sua carreira musical no passado dia 23 de Setembro, depois de 45 anos de carreira a cantar Cabo Verde pelo mundo.

O regresso da velha senhora

Os seus olhos cantam. São irmãos desavindos – quando um chora, o outro sorri. Morna e coladeira na esquina do mesmo olhar. Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz também. Há um brilho especial que ilumina o seu caminho. Já assim era nos tempos em que soltava a voz numa qualquer tasca da cidade do Mindelo, a troco de um cálice de grogue.

Continua assim, agora que avança com passos tão pesados quanto triunfantes, por alguns dos mais importantes palcos deste mundo. « A tristeza e a alegria são vizinhas », deixa escapar com desconcertante ingenuidade. Sem dar conta, de um sopro, Cesária Évora resume os seus sessenta anos de vida. Uma simples frase explica a música que lhe corre nas veias.

Morna e coladeira, tristeza e alegria. Música e sentimento – essências de uma mulher nascida com a voz num véu de ternura. Sina de uma vida feita história, que começa com « era uma vez ». Era uma vez uma ilha, uma cara esculpida na rocha, o Porto Grande a abarrotar de navios, um imenso azul a embalar sonhos impossíveis. O querer ficar mas ter de partir. A miséria.

E uma criança a beber os acordes do violino no aconchego do pai: « Quando eu era uma asneira jeito de dizer criança ele começava a tocar e metia-me entre as suas pernas. Então, eu cantava uns disparates. Não me passava pela cabeça que viria a cantar a sério. » Mas a avó, educada por freiras, viu nesta cena a antecâmara do milagre que, anos mais tarde, viria a realizar-se: « Disse-me que eu tinha nascido para cantar. »

Aos sete anos a vida ensina-lhe a primeira de muitas lições. A morna, com o seu pulsar lento e triste, não é só saudade. É mágoa, lamento. É sofrimento. E é amor. Foi no dia em que o som do violino se apagou. Justino da Cruz Évora – Djute para os amigos – morreu, deixando instrumentos de música e cinco filhos para criar. Deixa também B. Leza, o primo, o amigo, o companheiro de tocatinas. O poeta paralítico torna-se então uma espécie de pai para Cesária: « Eu ainda era uma rapariguinha e costumava ir a sua casa. » É ele quem lhe ensina que a morna é uma segunda pele.

Cesária – Cize como é conhecida nas ruas do Mindelo, sua cidade natal – bebe os acordes do mestre, olhos arregalados, coração a saltitar na ponta da língua. Fica com o olhar embevecido, lábios embebidos nos poemas de B. Leza. Cruza a juventude a trautear a doce melodia de « Lua Nha Testemunha » e « Miss Perfumado ». Mas são tempos difíceis.

Cresce no Mindelo, à beira do Lombo – bairro mal-afamado, terra de rufias e prostitutas. « A minha mãe era cozinheira. Quando eu tinha dez anos, ela trabalhava para a D. Maria Emília Fonseca, que era directora do orfanato. Um dia, a minha mãe pediu-lhe para me arranjar um lugar. » Porém, o feitio de Cesária não se verga à rigidez do lar: « Só lá estive três anos, saturei-me. » Mal respira a liberdade, enceta uma vida normal: « Ajudava em casa e dava os meus passeios. »

É numa dessas voltas que conhece o primeiro grande amor da sua vida – Eduardo de João Chalino, marinheiro e tocador de violão. Na frescura dos seus dezasseis anos, Cize passa a acompanhá-lo nas paródias. « Fazíamos serenatas por tudo e por nada. Era só alguém dizer ‘vamos fazer uma serenata a fulano ou a fulana’ e pronto. Às vezes, já vínhamos de algum bar e era só aproveitar a embalagem. » Ainda não tinha os vícios da noite – não fumava e só bebia gasosa. Limitava-se a acompanhar o seu príncipe e a sussurrar as mornas que lhe enchiam a alma.

Uma bela noite, ele descobre-lhe a pureza da voz. Que ela, tímida, teimava em esconder entre duas afinações do violão. « Comecei a cantar algumas das mornas que o Morgadinho tinha feito na Guiné. Eles estavam a ouvir mas não diziam nada. Depois, o Eduardo voltou-se para mim e disse: ‘Abre a voz e canta! Tens uma voz tão bonita e estás aqui a cantar baixinho’. Levantei a voz e ele disse: ‘Estão a ver, esta menina tem uma voz maravilhosa’. »

A notícia correu mais depressa que gazela. Num abrir e fechar de olhos, o Mindelo ficou a saber que a voz da menina estrábica tinha coração, alma e magia. Que o seu timbre adocicado encantava a madrugada, enfeitiçava até a mais espessa escuridão. Cize transformou-se na princesa das serenatas. Como ainda acontece, cantava por prazer. Bastava-lhe um pouco de grogue para olear as suas delicadas cordas vocais. A pouco e pouco, começou a embrenhar-se nas teias do álcool. Talvez por isso a sua voz tenha envelhecido suave como uma boa aguardente de Santo Antão. Já não bebe, mas a sua voz continua a inebriar o mundo.

Das serenatas ao vinil foi um passo de pé descalço. « O Frank Cavaquinho foi quem fez a gravação. Era eu, o Luís Rendall, e parece-me que o seu filho, o John Rendall, também participou. E outros ainda cujos nomes já não me recordo. Não me pagaram nem aos outros músicos. » Mas o pior ainda estava para vir. « Um dia estava a passar em frente à montra da loja do senhor Benvindo, em plena Rua de Lisboa, quando ouvi a minha voz. Fiquei espantada. »

« O Frank Cavaquinho nem sequer me ofereceu um exemplar para ficar com uma recordação.» Cesária, coração de algodão, não se deixou contaminar. Novo disco, nova desilusão. « O segundo foi com o João Mimoso, aquele comerciante de São Vicente. Também gravámos para ele e nada. Nunca vi um escudo. »

A tristeza é um lugar estranho. Sentimento que consome sonhos, enterra ilusões. Alimenta-se de solidão. Não raras vezes, caminha de braço dado com o álcool. Nos quase onze anos que passa sem cantar, o grogue torna-se o melhor amigo de Cesária.

Nos quase onze anos em que, desiludida, esconde a voz, refugia-se do mundo e tranca-se em casa da mãe, Dona Joana, com os filhos. « Tenho um rapaz, o Eduardo, que é filho de um português, e a Fernanda, que tive com o Piduquinha, que em tempos jogou futebol no Caldas da Rainha. » Como ela própria diz, um e outro são fruto « daqueles amorzinhos de juventude que não me trouxeram sorte ». Ainda assim, não cultiva rancores nem dá folga a ressentimentos. Tão-pouco ao tropa português, que a engravidou ainda na juventude. « Não sei se está vivo ou morto. Deixou-me com aquele menino no ventre e nunca mais disse nada. »

A fortaleza familiar é pilar seguro. Cize encontra ânimo para continuar a acreditar. O regresso aos palcos e aos discos acontece em 1985. Tudo graças a um convite da Organização das Mulheres do antigo partido único – o PAICV. Às vezes, há duas sem três – dessa feita, à conta da intervenção do então primeiro-ministro Pedro Pires, consegue receber: « Falei com a sua cunhada, a Arcília, e ela marcou uma audiência com ele. Contei-lhe a história e ele pôs-me em contacto com a secretária-geral da OMCV. Fui a um encontro com ela e ela disse: ‘É quanto?’, e eu respondi: ‘São cinquenta contos’. Ela passou-me um cheque. Talvez se tivesse pedido mais, teriam dado. »

Das ruas do Mindelo para a ribalta lisboeta

A roda da sorte começa viagem, quando Cesária é convidada por Bana, o rei da morna e do negócio, um gigante com voz de furacão. Ganha algum dinheiro mas, sobretudo, tem a sorte de viajar para Lisboa e para os Estados Unidos: « Fiz um grande sucesso na América, ganhei bem e ainda fiz uns ‘negóciozitos’ a mandar coisas para Cabo Verde. » Na altura, a caminhar a passos largos para os cinquenta, a diva da morna é obrigada a fazer uma importante concessão – calça os primeiros sapatos. O frio desaconselha pés nus.

Em Lisboa, Cize desembarca na famosa discoteca africana Monte Cara, na Rua do Sol ao Rato. Era a sua segunda casa, paragem de muitos outros cabo-verdianos. Cesária ri-se com as anedotas de Tito Paris, delicia-se com o virtuosismo de Paulino Vieira, troca dois dedos de conversa com um emigrante em trânsito para as ilhas. Canta. Encanta.

Entre muitos Marlboros – ainda hoje Cize é fumadora compulsiva – e dois grogues, é ali que conhece o homem que irá mudar a sua vida. Foi em 1987. José da Silva, Djô para amigos e conhecidos, antigo agulheiro dos caminhos-de-ferro franceses, fica maravilhado com a sua voz e propõe-lhe parceria.

Cize diz que não: « Naquele tempo, eu tinha outros compromissos. » Mas não foi um não definitivo: « Disse-lhe que quando acabasse o meu compromisso com o Bana dir-lhe-ia se o acompanhava ou não a Paris. » Acabou por aceitar o convite e a sua estrela passou a brilhar mais alto: « Era a mão que precisava para me ajudar. »

O encontro com Djô da Silva e o convite para ir para Paris

Nos dois primeiros discos Cize tenta modernizar os ritmos de Cabo Verde – é bem aceite, mas o grande sucesso ainda está para vir. Mar Azul é o primeiro, segue-se Lua Nha Testemunha. O namoro entre a voz suave de Cesária e a simplicidade da viola e do cavaquinho começa a dar que falar.

Um homem é fundamental na definição do som daquela que começa a ser conhecida como a « Diva dos pés descalços ». Trata-se de Paulino Vieira, um dos génios da música cabo-verdiana. E ele não lhe poupa elogios: « A Cesária é como água fresca, uma pessoa tem sempre vontade de voltar a beber. E quando já está cansada desta água, depois de bebê-la de novo, chega à conclusão que tem ainda necessidade de bebê-la mais vezes. »

O resto da história é património mundial. As salas esgotadas – Tóquio, Paris, Nova Iorque… « Eu canto da mesma maneira numa serenata ou numa dessas salas famosas. » Os inúmeros prémios e condecorações, enfeites das paredes da sua casa no Mindelo: «Sou uma pessoa simples ».

A conta bancária que não pára de engordar: « Costumo dizer que o Banco de Cabo Verde já não aceita o meu dinheiro e por isso estou agora a guardá-lo na Suíça (enorme gargalhada). As pessoas só se preocupam com estas coisas. Antes nunca ninguém pensou em ajudar-me. » A simplicidade de uma mulher que, apesar das luzes da fama, continua com os pés descalços. Bem assentes no chão. « Consigo viver sem cantar. Quando largar vai ser de vez. »

Depois do acidente vascular cerebral (AVC) sofrido na Austrália, em Março de 2008, dos tratamentos, em Paris e do merecido descanso no Mindelo, Cesária regressa aos palcos mundiais. De novo, com a alma na voz. Aquela voz, a sua. Diz quem já a ouviu que continua a mesma. Suave, celestial. De novo, com doçura e sinceridade: « Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou. » Cize é muito mais que sentimentos. Muito mais que música. É Cabo Verde no mundo.

Condecorações

Em 1999, Portugal, agraciou Cesária Évora com a medalha da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

O galardão Les Victoires de la Musique para Melhor Álbum de World Music foi-lhe atribuído por duas vezes: em 2000 pelo álbum “Café Atlântico” e em 2004 pelo álbum “Voz d’Amor”.

“Voz d’Amor” foi igualmente premiado em 2004, com o Grammy para Melhor Álbum de World Music. Em 2009, o presidente francês Jacques Chirac distinguiu-a com a medalha da Legião de Honra de França.

Em Dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, o Presidente Lula da Silva condecorou Cesária Évora com a medalha de Ordem do Mérito Cultural 2010.

Cesária Évora foi distinguida com o prémio carreira na gala do Cabo Verde Music Awards 2011.

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